NEGOCIAÇÃO NO ESPORTE

Em 2015, Atlético-MG negociou com Marcelo Bielsa; vice guarda tesouro do encontro

Lásaro Cândido revela como foram as conversas entre diretoria do Galo e o técnico argentino, recém-campeão na Inglaterra; vice guarda "documento" com metodologias do "Loco"

Marcelo Bielsa, treinador argentino de 64 anos, atualmente no Leeds

Marcelo Bielsa, treinador argentino de 64 anos, atualmente no Leeds

Marcelo Bielsa é uma marca no futebol. Com 30 anos de carreira na função de treinador, tem títulos a contar numa mão. Por outro lado, criou tendência e seguidores famosos. Um deles está no próprio Atlético-MG. Jorge Sampaoli é um dos "pupilos" das ideias do técnico do Leeds, recentemente campeão da Segunda Divisão Inglesa. Há cinco anos, quase que Bielsa em pessoa veio treinar o Galo. O vice-presidente Lásaro Cândido, à época diretor jurídico, acompanhou as negociações e guarda de lembrança um documento de 10 páginas com a "metodologia Bielsa".

Marcelo Bielsa estava em um período de recolhimento pessoal e se hospedou em um spa em Gramado, na serra gaúcha, no fim de 2015 e início de 2016. O Galo procurava um treinador para substituir Levir Culpi, que havia vencido a Copa do Brasil 2014 e sido vice-campeão brasileiro no ano seguinte. Por meio do ex-defensor Baidek - campeão mundial pelo Grêmio - o clube mineiro conseguiu contactar Bielsa. E ele se animou com a proposta.

O "técnico dos técnicos" havia deixado o Olympique de Marseille (França) em agosto de 2015 e estava desempregado. O Atlético iria jogar contra o Grêmio na penúltima rodada do Campeonato Brasileiro (29/11), já com o interino Diogo Giacomini no cargo. Daniel Nepomuceno e o falecido diretor Eduardo Maluf, com Lásaro Cândido, marcaram a reunião para as 8h no spa.

- Fizemos contato, e ele topou (conversar), falou que tinha interesse. Mandamos as primeiras informações e marcamos a conversa - lembra Lásaro.

Saíram de lá após o horário de almoço. E Lásaro, impressionado com o projeto apresentado em detalhes, que tinha até mesmo avaliação dos jogadores do Atlético, guardou uma "tesouro" daquele encontro. As impressões do vice-presidente renderam até um artigo sobre o assunto, publicado por ele no Twitter (veja abaixo).

- São 10 páginas, exatamente. São 10 laudas. Eu guardei e salvei em outro lugar, mas tenho ele original, físico, escrito. Textos escritos. Ele foi falando (na reunião) e seguindo o roteiro do texto. Eu estava sentado ao lado dele, lendo o texto. Eu ficava lendo ao lado dele, ele mostrando. Como eu estava mais próximo, ele me mostrava com o dedo. O Maluf e o Daniel estavam de frente. Era uma mesa de um café. Ele mostrava, e de vez em quando eu perguntava a ele sobre modelo de jogo. Ele pensou que eu era o presidente, sei lá (risos) - relembra o vice-presidente.

Artigo que escrevi (são reflexões sobre o futebol) -
“Modelo de jogo e organização: a queda dos técnicos brasileiros” pic.twitter.com/Nsoi7bL6Lu

— July 20, 2020

As regras de Bielsa

Marcelo Bielsa foi punido na Inglaterra por admitir espionar adversários. Chegou também a ordenar que sua equipe levasse um gol por querer, após marcar um gol sem respeitar o Fair Play (algo que impediu o Leeds de subir para a Premier League, mas lhe valeu um prêmio da Fifa). Após 16 anos, a tradicional equipe consegui retomar o posto na elite, nas mãos do treinador, conhecido pela metodologia única. Segundo Lásaro, a personalidade profissional de Bielsa carrega certos códigos.

No documento de 10 páginas, ele apresentava algumas regras de convivência e outras exigências que o Atlético teria de oferecer. Treino para a imprensa? Sem chance. Diretor no campo de treinamento? Também descartado. Há a necessidade de ter o maior número de informações sobre quase tudo. Até mesmo a família dos jogadores.

- O que aconteceu: primeiro ele fala qual é o modelo de jogo, por que ele trabalha tal modelo, por que isso exige treinamento, por que determinado perfil de jogador vai se adequar a esse tipo de modelo. Segundo: quais as regras de convivência no CT. Por exemplo, ele não admite que dirigente entre no campo de treinamento. Outra coisa: tinha que ter atendimento psicológico para cada jogador, para a família, verificar o que está acontecendo - lembra Lásaro.

- Outra coisa que achei espetacular: ninguém pode ganhar mais do que ninguém, como bicho e premiações. Como já tivemos aqui premiação por gol. Isso não existe (para ele). Não pode ter. Ninguém pode ter premiação diferente. Não aceita ninguém no campo, nem presidente - completa.

Por fim, Bielsa termina a sua "entrevista de emprego" de forma arrebatadora. Começa a analisar o próprio time do Atlético e apresenta pontos positivos e negativos, inclusive já descartando alguns nomes do elenco.

Por que não deu certo?

Contratar Bielsa é também trazer e abraçar uma ideia de jogo que passa, necessariamente, por sacrifícios. O técnico argentino se assemelha muito ao "pupilo" Sampaoli neste aspecto. Se em 2020 o Atlético é capaz de investir quase R$ 100 milhões em contratações pedidas pelo atual treinador (com ajuda de parceiro), uma reformulação no elenco em 2016 foi uma barreira para o "não" a Bielsa.

O salário do técnico campeão olímpico em 2004 não era tão assustador, apesar de alto - algo em torno de 375 mil dólares (R$ 1,5 milhão na época), líquidos.

- O investimento era alto para ele. Mas, em tese, era até possível se fazer. O problema é que tinha de fazer reformulação completa no elenco. Para ele, era um valor alto. Mas o salário dele não era o fim do mundo. E nem iria trazer grande comissão técnica. Tinha três ou quatro nomes. Mas aí você tinha que cumprir exigências. O investimento. Ele passava uma série de possibilidades. Para a lateral? Tinha esse, mais esse e esse. Ele tinha tudo! Até peguei os nomes na época, porque tinha nome para tudo quanto é lado, na Argentina, não sei aonde - finaliza Lásaro.

Depois de ter a reunião sem acordo com o Atlético, em novembro de 2015, Bielsa precisou esperar até julho de 2016 par acertar com a Lazio. O clube italiano não cumpriu o prometido, e o "Loco" deixou Roma dois dias depois. Exatamente isso, ficou no cargo por 48 horas. O motivo foi a falta de reforços. Novo hiato de 12 meses na carreira até acertar com o Lille, da França, em 2017 (onde comandou o zagueiro Junior Alonso, trazido ao Galo por Sampaoli). Acumulou polêmicas, tendo ficado pouco tempo no cargo. Chegou ao Leeds em 2018, para fazer história e fortalecer ainda mais a sua áurea.

Fonte: Globo Esporte

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